Vejamos dois artigos perturbadores:
Artigo 1 - “Burrice é genética e deveria ser curada, diz pioneiro do DNA – Jornal do Brasil, 28/02/2003.
LONDRES - A burrice é uma doença genética que deveria ser curada, segundo James Watson, um dos dois cientistas que descobriram a estrutura do DNA há 50 anos, uma conquista que lhe valeu o prêmio Nobel de Medicina em 1962.
A declaração foi dada pelo cientista num documentário
da TV britânica Channel 4 que será transmitido amanhã
para comemorar o 50º aniversário da chamada ''descoberta
do século''.
Watson defende que as pessoas burras ou com coeficiente intelectual
baixo que não têm um transtorno mental diagnosticado sofrem
de uma desordem que é transmitida de forma hereditária
pelos genes, como acontece com doenças como a fibrose cística
ou a hemofilia.
''Se alguém é realmente burro, chamaria isso de doença'', diz o renomado professor, grande impulsor do Projeto Genoma Humano, a iniciativa internacional para decifrar o chamado 'mapa da vida'.
Watson considera um erro associar a lentidão na aprendizagem
a uma situação de pobreza ou a problemas familiares, ''como
diria muita gente'', já que é mais provável que
exista uma causa genética que pode e deve ser corrigida.
Na opinião de Watson, que aos 75 anos é um aberto defensor
de usar a engenharia genética para melhorar a raça humana,
os cientistas têm de desenvolver tratamentos genéticos
e fazer exames pré-natais para prevenir o nascimento de crianças
burras.
''É injusto que as pessoas não tenham as mesmas oportunidades
(de ser inteligentes). Uma vez que se disponha de um método para
melhorar nossas crianças, ninguém pode evitar sua aplicação.
Seria burro não usá-lo'', defendeu.”
Artigo 2 - “Give me the baby”
Estas famosas palavras de John B. Watson tornaram-se o grito de guerra dos ambientalistas de todo o mundo: “Dêem-me o bebê e eu o farei crescer e usar suas mãos na construção de edifícios de pedra ou madeira... Eu farei dele um ladrão, um fabricante de armas ou um viciado em tóxicos. As direções em que é possível moldá-lo são quase infinitas. Mesmo discrepâncias na anatomia nos limitam menos do que pensamos... Dêem-me um surdo-mudo e construirei para vocês uma Helen Keller. Os homens são construídos, não nascidos.
(SPRINTHALL, R.C.; SPRINTHALL, N.A. Educational Psychology. Reading, Addison-Wesley, 19777, p.52).
Vejo que é de suma importância compreendermos essas duas
linhas de raciocínio e enxergarmos suas concepções
de desenvolvimento subjacente e de que forma elas se refletem no nosso
cotidiano, mais especificamente na prática docente.
Os textos anteriores apresentam teorias a partir de matrizes diferentes,
porque a primeira apresenta a inteligência do ser humano como
algo inato (teoria inatista), ou seja, algo arraigado em seu cérebro
(no caso devido ao seu DNA) e que independente do que se faça,
em termos psicológicos, e do esforço da pessoa, sempre
carregará consigo os seus limites intelectuais (a não
ser que sejam tratados como uma doença, conforme o autor), enquanto
que o segundo texto traz uma visão de que o ser humano e a sua
inteligência não são estáticos, mas sim dependem
do meio em que estão inseridos e das experiências que o
indivíduo tem durante a sua vida (empirismo).
A visão do primeiro texto traz uma concepção de
determinismo das pessoas, em que estas são predestinadas de acordo
com a fortuna, sendo que assim, a questão de inteligência
se resume à sorte de possuir determinados genes corretos. No
contexto escolar essa visão implica em uma desmotivação
do aluno que sistematicamente não consegue atingir os objetivos
do conteúdo programático, uma vez que, por lógica,
este deva ser, portanto, desprovido geneticamente de inteligência
e que, assim, não exista nada que o indivíduo possa fazer
para reverter esse quadro. Uma implicação mais temerária
ainda é a que se reflete na postura do professor que adota essa
visão como verdadeira pois, uma vez que o aluno possui limitações
inerentes a ele e não há nada que possa ser feito no campo
pedagógico para alterar isso, essa abordagem de determinados
problemas de aprendizado pode levar à uma desistência do
educador em relação ao educando.
A respeito da segunda visão, que revela uma vertente do pensamento
psicológico que assume como verdadeiro o fato de que a pessoa
não nasce com a inteligência (e suas capacidades mentais
prontas), mas sim vai sendo moldada de acordo com as suas experiências
de vida. Assim sendo, a implicação dessa vertente na educação
é a de transferir por completo a responsabilidade da formação
do ser humano para a sociedade (uma visão exógena do aprendizado)
e, em última análise para a escola (a qual representa
uma micro-sociedade para a criança) e conseqüentemente para
o professor, que “detém” o conhecimento e o poder
das ações da turma durante o período de sua aula
e, de acordo com essa vertente, dependendo de suas atitudes e posturas,
pode moldar a inteligência da criança que está sujeita
à sua prática pedagógica.
Contudo a prática pedagógica nos mostra ser possível
encontrar um meio termo entre essas duas visões, uma vez que
ao mesmo passo que existem certas características inerentes a
cada ser humano, sendo que algumas delas se refletem em sua capacidade
de retenção de conteúdo e relacionamento de informações,
também temos a influência do meio e dos estímulos
aos quais cada pessoa está exposta desde o seu nascimento e que,
de forma contundente, estabelece parâmetros (símbolos de
Jung) que norteiam suas tomadas de decisão e consequente negociação
e compreensão do mundo que a cerca.
Assim, nesse universo naturalmente pluralista, fundamental se faz compreender
que cada aluno é um ser único, dotado de capacidades e
inaptidões que o leva a ter melhor ou pior rendimento em determinadas
situações, mas que se houver a imperatividade do aprendizado
(social, circunstancial etc.), o mesmo é capaz de obtê-lo.
E o professor nesse recorte se apresenta não como um rotulador
de aptidões ou um juiz da seleção natural intelectual,
mas sim como um medidor da distância existente entre a realidade
mental e psíquica do aluno e o objeto de estudo. Com base nessa
régua docente, o mesmo é capaz de traçar uma estratégia
clara (para todos os agentes envolvidos: pais, aluno, professor, comunidade
etc.) e eficaz (com foco e pré-determinações) com
vista na correta obtenção do saber.
